Ângulo de Anderson

Por que a IA ama escrever sobre guardiÃĩes de farol?

mm
Adicione Unite.AI às suas fontes preferidas no Google
AI-generated image (GPT-2): Infinite identical lighthouse keepers stand screaming along a rain-soaked stone causeway above a violent sea, while matching lighthouses repeat into the distance beneath dark storm clouds, creating a photoreal recursive landscape.

Quando solicitado a ‘escrever uma histÃģria’, ChatGPT e outros modelos de linguagem líderes parecem estar evitando a violaçÃĢo de direitos autorais por meio de um recurso obsessivo ao mesmo pequeno e estranho elenco de guardiÃĩes de farol, pescadores e relojoeiros.

 

Um novo estudo da Universidade de Cornell descobriu que os principais modelos de linguagem parecem ter uma estranha obsessÃĢo por uma seleçÃĢo muito estreita de elementos narrativos, quando solicitados a simplesmente ‘escrever uma histÃģria’. ApÃģs solicitar a quatro LLMs que escrevessem 20.000 histÃģrias, eles descobriram que 88% das histÃģrias produzidas apresentavam pelo menos um dos 11 tokens muito específicos, na categoria de ‘localizaçÃĢo’, ‘nome’ ou ‘profissÃĢo’:

As ocorrÊncias de palavras-chave improvÃĄveis, representadas aqui em partes por milhÃĢo, obtidas pela anÃĄlise dos pesquisadores de 20.000 histÃģrias geradas por LLM. Fonte - https://arxiv.org/pdf/2605.26492

As ocorrÊncias de palavras-chave improvÃĄveis, representadas aqui em partes por milhÃĢo, obtidas pela anÃĄlise dos pesquisadores de 20.000 histÃģrias geradas por LLM. Fonte

Os 11 palavras mais recorrentes nos 12+ milhÃĩes de palavras gerados pelos LLMs para o estudo foram os nomes elias, mara, elara; as profissÃĩes guardiÃĢo, padeiro, prefeito, relojoeiro, pescador, bibliotecÃĄrio e maestro; e a localizaçÃĢo farol:

Os modelos testados foram Claude Haiku 4.5, Gemini 3.1 Flash-Lite, GPT-5.4-Mini e OLMo 7b Thinking. Todos foram solicitados com um dos cinco pedidos: ‘Escreva uma histÃģria’; ‘Por favor, escreva uma histÃģria’; ‘Escreva uma histÃģria para mim’; ‘Conte-me uma histÃģria’; ou ‘Por favor, conte-me uma histÃģria’.

Curioso para ver se o síndrome que o artigo identifica estÃĄ presente em modelos disponíveis no momento da escrita, tentei o experimento eu mesmo, primeiro em minha conta padrÃĢo de ChatGPT (link para a conversa aqui). Nenhuma seleçÃĢo foi necessÃĄria – ChatGPT-5.5 foi direto para o material que os pesquisadores previram, na primeira tentativa:

ChatGPT-5.5 imediatamente confirma as descobertas iniciais do artigo. Fonte - https://chatgpt.com/share/6a16b1f0-eb40-83eb-8380-1d5cdf0ea955

ChatGPT-5.5 imediatamente confirma as descobertas iniciais do artigo. Fonte

Me perguntando se o contexto histÃģrico, ou mesmo uma possível vazamento entre domínios, poderia estar explicando esse ‘acerto imediato’, eu entrei em uma conta gratuita de ChatGPT que nÃĢo usei em um ano ou mais, em uma janela de navegaçÃĢo privada do Firefox, e tentei novamente (link para a conversa aqui). Mais uma vez (supondo que a OpenAI nÃĢo use um endereço IP comum para popular diferentes contas), ChatGPT acertou em cheio:

A conta #2 do ChatGPT segue as mesmas obsessÃĩes e o pequeno roteiro de nomes e temas delineados no novo artigo. 'Mira' estÃĄ entre os 20 principais dos autores.

A conta #2 do ChatGPT segue as mesmas obsessÃĩes e o pequeno roteiro de nomes e temas delineados no novo artigo. ‘Mira’ estÃĄ entre os 20 principais dos autores. Fonte

É importante notar que essas versÃĩes do GPT eram um nível acima das 5.4 testadas no artigo.

No entanto, nÃĢo consegui reproduzir as descobertas dos autores no Google Gemini inicialmente, atÃĐ que mudei especificamente o modelo para o usado no artigo, Gemini 3.1 Flash-Lite – e entÃĢo, na terceira tentativa (mas a primeira com esse modelo), o padrÃĢo surgiu imediatamente (link aqui):

Google Gemini 3.1 Flash-Lite. Fonte - https://gemini.google.com/share/82c245884ec1

Google Gemini 3.1 Flash-Lite. Fonte

Experimentos adicionais com diferentes modelos do Gemini invariavelmente revelaram o tema do farol, embora com variantes nÃĢo apresentadas nos ’11 principais’, como o nome ‘Thomas’, e, em outra variante, meu prÃģprio nome, como o protagonista.

No entanto, no momento da escrita, as descobertas do artigo sÃĢo extremamente fÃĄceis de provar.

FarÃģis na Natureza

Grandes mentes pensam de forma semelhante: hÃĄ uma semana, antes da publicaçÃĢo do novo artigo, o escritor de software Daniel May apontou a coincidÊncia do tropo Elias e guardiÃĢo de farol extraído pelos pesquisadores*, aparentemente tendo notado isso aleatoriamente. Ele prosseguiu para testar oito variantes do Gemini, DeepSeek, Qwen e Gemma, que ele encontrou produziriam o farol memes e ‘Elias Thorne’ como protagonista*. No entanto, essa descoberta inicial nÃĢo se estendia ao amplo conjunto de temas de conteÚdo persistentes delineados no novo artigo.

Curioso para ver se esses temas recorrentes, nomes e localizaçÃĩes haviam escapado dos limites de uma conversa, eu procurei por alguns dos principais palavras-chave e temas no Google e encontrei um nÚmero notÃĄvel de posts que pareciam ter canalizado esses temas:

TrÊs exemplos do meme em saída. Veja abaixo para links de fonte.

TrÊs exemplos do meme em saída. Veja abaixo para links de fonte.

May havia identificado o Elias Thorne (e nÃĢo apenas ‘Elias’) como um meme de LLM persistente e postou vÃĄrias capturas de tela da Amazon, onde esse nome aparentemente foi usado como título para os autores de livros diversos, incluindo livros mÃĐdicos.

Em vez disso, eu procurei e encontrei conteÚdo que parecia ter invocado os temas persistentes de um LLM, incluindo um post do X de uma histÃģria (versÃĢo de arquivo aqui); uma obra de ficçÃĢo (versÃĢo de arquivo aqui); e uma histÃģria com narraçÃĢo no YouTube (arquivada aqui). Havia muito mais para percorrer, mas o tempo nÃĢo permitiu.

Um Gosto pelo Passado

EntÃĢo, quanto à observaçÃĢo casual e serendipidade. Embora nenhum ‘documento mÃĄgico’ Único em dados de treinamento tenha sido encontrado que apresente todos ou a maioria das persistÊncias, os autores do novo artigo (intitulado Elias no Farol, Novamente? DiagnÃģstico de Baixa Diversidade em HistÃģrias de LLM, de dois pesquisadores da Universidade de Cornell) teorizam que filtros de direitos autorais em desenvolvimentos de IA podem estar restringindo a saída fictícia em LLMs a material que estÃĄ fora de direitos autorais.

Os autores afirmam:

‘Descobrimos que a dominÃĒncia das histÃģrias “Elias no Farol” nÃĢo pode ser explicada pela prevalÊncia em dados de prÃĐ- ou pÃģs-treinamento. Especulamos que os modelos sÃĢo treinados para evitar referÊncias a personagens com direitos autorais e conteÚdo adulto durante o alinhamento, mas diferimos essa questÃĢo para trabalhos futuros.’

Categoria Token Nossa Lit PrÃĐ nÃĢo-ficçÃĢo PrÃĐ ficçÃĢo PÃģs nÃĢo-ficçÃĢo PÃģs ficçÃĢo
Nome elias 2,428 2.7 2.2 4.0 0.4 52.7
Nome mara 5,200 3.9 2.5 8.7 0.4 21.7
Nome elara 1,221 0.0 0.4 1.2 0.9 108
ProfissÃĢo guardiÃĢo 1,495 7.2 6.3 14.7 3.5 10.0
ProfissÃĢo padeiro 161 20 11.8 10.56 1.7 11.9
ProfissÃĢo prefeito 198 28 11.5 16.1 1.4 27.4
ProfissÃĢo relojoeiro 108 0.1 0.18 0.0 0.3 1.4
ProfissÃĢo pescador 62 4.2 3.0 7.6 0.0 9.3
ProfissÃĢo bibliotecÃĄrio 68 5.3 7.6 5.9 2.3 11.5
ProfissÃĢo maestro 96 5.0 5.9 5.7 4.7 7.5
LocalizaçÃĢo farol 3,005 5.5 3.5 4.6 4.6 10.1

Tabela de comparaçÃĢo mostrando com que frequÊncia as palavras recorrentes das histÃģrias geradas por IA aparecem em literatura publicada, ficçÃĢo da web e conjuntos de dados pÃģs-treinamento, com termos como ‘Elias’ e ‘farol’ ocorrendo com muito mais frequÊncia na ficçÃĢo escrita por chatbots.

No estudo, os autores descobriram que as 11 palavras enfatizadas ocorrem em 88% das 20.000 histÃģrias geradas e que hÃĄ ‘pouca diferença entre os modelos’. Eles enfatizam que essas palavras sÃĢo incomuns na literatura inglesa publicada e que os dados pÃģs-treinamento (dados projetados para condicionar e alinhar os modelos em ‘uso aceitÃĄvel’) podem ser responsÃĄveis.

O artigo afirma:

‘Um exemplo típico mostrado [abaixo] destaca trÊs elementos comuns em quase todas as 20.000 histÃģrias: uma localizaçÃĢo (19.864 histÃģrias), um nome de personagem (19.864 histÃģrias) e uma profissÃĢo (15.807 histÃģrias).

‘De fato, a localizaçÃĢo específica (“farol”), o nome (“Elias”) e a profissÃĢo (“guardiÃĢo”) nessa histÃģria aparecem em alguma combinaçÃĢo em 66,6% de todas as histÃģrias geradas. Luz ÃĐ tambÃĐm um tema comum: 56% das histÃģrias geradas pelo Claude sÃĢo intituladas “O Segredo do GuardiÃĢo do Farol” e a palavra “luz” aparece em 16.784 histÃģrias a uma taxa mÃĐdia de 3,2 ocorrÊncias por histÃģria.’

Esse exemplo, afirma o artigo, foi escrito pelo Google Gemini 3.1 Flash-Lite, em resposta ao pedido 'Escreva uma histÃģria'.

Esse exemplo, afirma o artigo, foi escrito pelo Google Gemini 3.1 Flash-Lite, em resposta ao pedido ‘Escreva uma histÃģria’.

É importante notar que os autores do estudo identificam uma tendÊncia nostÃĄlgica ou atÃĄvica em todos os tokens e nomes derivados.

Perseguindo os Traços

Para testar se as histÃģrias recorrentes de ‘farol’ podem ser explicadas pela exposiçÃĢo comum à ficçÃĢo, comparaçÃĩes foram feitas entre as palavras recorrentes favoritas dos modelos e vÃĄrios grandes conjuntos de dados em inglÊs. A ficçÃĢo contemporÃĒnea foi examinada por meio do CONLIT, um conjunto de dados que contÃĐm 2.700 romances em inglÊs publicados entre 2007 e 2021, cobrindo 12 gÊneros e totalizando cerca de 287 milhÃĩes de palavras.

‘Elias’ apareceu cerca de 900 vezes mais frequentemente nas histÃģrias geradas do que na ficçÃĢo publicada. A ficçÃĢo amadora da comunidade /r/writingprompts do Reddit produziu frequÊncias semelhantes, indicando que o padrÃĢo nÃĢo reflete os hÃĄbitos de contaçÃĢo de histÃģrias humanos mais amplos.

O mesmo padrÃĢo se manteve quando os dados de prÃĐ-treinamento foram examinados. Usando o corpus OLMo 3 disponível publicamente, que contÃĐm cerca de 3,89 bilhÃĩes de documentos principalmente escritos por humanos, extraídos parcialmente do Common Crawl, os pesquisadores descobriram que as palavras recorrentes ‘Core’ apenas aparecem.

Desde que grande parte do corpus OLMo 3 ÃĐ nÃĢo-ficçÃĢo, um classificador de ficçÃĢo foi construído usando GPT-OSS 20b anotaçÃĩes e um FastText modelo treinado em 200.000 amostras balanceadas. Mesmo apÃģs filtrar especificamente para material fictício, palavras como ‘Elara’ ainda apareciam a taxas negligenciÃĄveis em comparaçÃĢo com as histÃģrias geradas por IA. Por que, entÃĢo, elas dominam no nível mais baixo da diretiva para um LLM escrever ficçÃĢo?

Os autores afirmam:

‘Se as palavras Core nÃĢo sÃĢo comuns nos dados da web, entÃĢo uma fonte restante seria os dados pÃģs-treinamento. Mas descobrimos que os dados pÃģs-treinamento do OLMo exibem nossos tokens a uma taxa mais baixa do que o CONLIT.

Dentro de 78.958 histÃģrias dos conjuntos de dados pÃģs-treinamento do OLMo 3, eles observam, ‘Elias’ apareceu 52,7 vezes por milhÃĢo de palavras, em comparaçÃĢo com 2,7 no CONLIT, mas atingiu 2.428 ocorrÊncias por milhÃĢo de palavras nas histÃģrias geradas examinadas no estudo.

Para identificar de onde vinham as histÃģrias recorrentes ‘Core’, cada histÃģria nos conjuntos de dados pÃģs-treinamento do OLMo 3 foi pontuada para a presença de um ou mais tokens Core (ou seja, para a presença de Elara, Mara, etc.). A maioria era esperada para aparecer em treinamento de ajuste supervisionado (SFT), porque WildChat e fontes relacionadas contribuíram com 59.266 histÃģrias para o OLMo 3.

No entanto, apenas 1.803 contiveram termos Core, enquanto conjuntos de dados usados para DPO e aprendizado por reforço mostraram concentraçÃĩes mais altas.

No geral, o vocabulÃĄrio Core recorrente foi rastreado atÃĐ apenas 3.053 histÃģrias, representando 3,8% de todos os conjuntos de dados pÃģs-treinamento examinados. NÃĢo hÃĄ possibilidade estatística para que um subconjunto tÃĢo pequeno de corpora acabe dominando de forma tÃĢo evidente.

O artigo conclui:

‘Quando dado pouca direçÃĢo, os modelos atuais da fronteira escrevem histÃģrias usando um catÃĄlogo estreito de nomes, lugares e ocupaçÃĩes. Personagens recorrentes nessas histÃģrias incluem Elias, um guardiÃĢo de farol. Elias ÃĐ incomum; o nome ÃĐ incomum na literatura, nos dados da web e atÃĐ mesmo nos dados pÃģs-treinamento.’

ConclusÃĢo

Na ausÊncia de qualquer obra literÃĄria Única (ou mesmo uma sÃĐrie) que apresente as 11 palavras principais que os autores identificam, nÃĢo estÃĄ claro por meio de que mecanismo essa coleçÃĢo particular de palavras se acumulou e se auto-associou nos níveis mais baixos de vÃĄrios grandes modelos de linguagem (nÃĢo obstante a diversidade de seus dados de treinamento e abordagens).

Even if the researchers’ contention about the constraining effect of copyright filters is correct, a veritable ocean of classic literature in the training data should have prevented this strange collection of old-school words from dominating the output of a non-qualified ‘write’ prompt.

That theory assumes, however, that vast amounts of classic literature would have been included in the training regimen at all. That’s unlikely, since what’s wanted are not models that will knock out faux Dickens outings, but rather that deal with the modern lexicon, and are suited for current business needs. The sheer volume even of pre-industrial literature would preclude its inclusion.

In any case, if there were one distinct narrative featuring some alternating mix of the ‘obsessive’ facets that the authors note, it would, presumably, be easier to find; the authors themselves could not find it, and casual searches on the pre-AI era unearth no such contender. Perhaps, if ‘lighthouse syndrome’ gains the same notoriety as AI em dashes, some scholarly authority will come forward with the answer.

 

* I can’t go any further into May’s article, for reasons that may become obvious when one reads it.

First published Wednesday, 27 de maio de 2026. Modified in first 30 minutes to fix Anthropic link.

Escritor sobre aprendizado de mÃĄquina, especialista em síntese de imagem humana. Anteriormente, chefe de conteÚdo de pesquisa da Metaphysic.ai, atÃĐ sua dissoluçÃĢo na Brahma.ai da DNEG.
Portfolio site: martinanderson.ai
Contato: [email protected]